Geuna S, Papalia I, Tos P - End-to-side (terminolateral) nerve regeneration: A challenge for neuroscientists coming from an intriguing nerve repair concept. Brain Research Reviews 52: 381-388, 2006
Resumo: Os últimos 15 anos presenciaram um interesse crescente com relação a uma técnica de reparo de nervo denominada neurorrafia terminolateral. Essa técnica é baseada no conceito de que a regeneração da fibra nervosa ao longo do coto distal de um nervo seccionado e cujo coto proximal não está disponível, pode ser alcançada simplesmente através da sutura da porção proximal do coto distal no epineuro de um nervo doador adjacente, sadio e sem lesão. Diversos estudos experimentais demonstraram que a neurorrafia terminolateral é, de fato, capaz de induzir brotamento colateral a partir dos axônios do nervo doador, que constitui a base para a repopulação do coto nervoso distal. As fibras nervosas em regeneração eventualmente reinervam a periferia do nervo lesado podendo levar a uma recuperação da função perdida, cujo grau varia dependendo de fatores que ainda necessitam elucidação. Surpreendentemente esse conceito intrigante de regeneração nervosa atraiu muito pouca atenção de neurocientistas básicos até o momento. Esse artigo visa chamar a atenção desses profissionais, indicando as diversas perguntas sem resposta que esse conceito apresenta à comunidade de neurociências.
Kelly EJ, Jacoby C, Terenghi G, Mennen U, Ljungberg C, Wiberg M - End-to-side nerve coaptation: a qualitative and quantitative assessmente in the primate. Journal of Plastic, Reconstructive and Anesthetic Surgery 60: 1-12, 2007
Resumo: Existem diversas razões pelas quais a coaptação términolateral de nervos não foi amplamente adotada na clínica. Entre essas coloca-se o dano inflingido ao nervo doador e a variável qualidade da regeneração no nervo receptor. Até o momento os experimentos sobre o reparo términolateral de nervos tem sido a curto prazo e especialmente em ratos. Nosso estudo a longo prazo do reparo términolateral do nervo mediano para o nervo ulnar e do nervo ulnar para o nervo mediano foi realizado em primatas não-humanos adultos. Onze reparos de nervos foram estudados com diferentes períodos de tempo. Dezoito, 22, 33 e 57 meses após cirurgia, foi realizada uma análise qualitativa e quantitativa do nervo doador e do nervo em regeneração, que revelou níveis variáveis no percentual de regeneração axonal, em comparação com controles (1,4% - 136%). Evidencia morfológica de dano no nervo doador foi identificada distal ao ponto de coaptação em quatro de 11 casos, e nesses casos foi observada a melhor regeneração axonal nos nervos receptores correspondentes. Não foi possível demonstrar esse dano do nervo doador nem em termos de diminuição da contagem axonal distal ao ponto de coaptação e nem como uma desnervação do órgão alvo diador. A regeneração do órgão alvo receptor, tal como a regeneração axonal variou, com evidencia de regeneração motora em oito de 11 casos e a regeneração sensitiva variou de 12,5% a 49%. Os resultados do presente estudo demonstram que a técnica de coaptação términolateral em primatas não-humanos não fornece resultados previsíveis. Em geral a recuperação motora aparece melhor que a sensitiva e naqueles casos onde foi observado dano ao nervo doador a regeneração em geral foi melhor.
Comentário:
Embora extremamente atraente, a técnica de sutura de nervos término-lateral ainda não apresenta respaldo adequado na literatura, para que seu uso seja generalizado. Existem evidências de que o brotamento axonal ocorre e que eventualmente atinge o órgão-alvo, sendo que as respostas motoras são imprevisíveis e de pouca intensidade. Ao meu ver esse procedimento deve ser reservado exclusivamente para o reparo de pequenos nervos sensitivos.
Mario G. Siqueira
Preliminary results of double nerve transfer to restore elbow flexion in upper type brachial plexus palsies. Plast Reconstr Surg 2006; 117: 915-919.
Resumo: A restituição da flexão do cotovelo é o principal objetivo no tratamento das lesões das raízes superiores do plexo braquial. Resultados satisfatórios tem sido obtidos através da transferência do nervo ulnar para o ramo motor do músculo bíceps, mas freqüentemente a recuperação é insuficiente nas lesões das raízes C5-C6-C7, em pacientes idosos e após um intervalo prolongado entre a lesão e a cirurgia. Neste estudo os autores investigam os resultados com a transferência de um ou mais fascículos do nervo ulnar para o ramo motor do músculo bíceps e um fascículo do nervo mediano para o ramo motor do músculo braquial. Métodos: Quinze pacientes foram operados com a técnica descrita, com um seguimento superior a 6 meses em dez deles. Seis apresentavam lesões relacionadas às raízes C5-C6, três apresentavam lesões das raízes C5-C6-C7 e um era portador de uma lesão infraclavicular. A média de idade era de 27.2 anos. O tempo entre a lesão e a cirurgia foi de 6.6 meses. A média do seguimento foi de 12.1 meses. Resultados: Nos dez pacientes o grau de força da flexão do cotovelo foi 4. Nos dez casos, os pacientes apresentavam a habilidade de levantar 1 a 5 Kg. Não foram identificaram déficits sensitivos ou relacionados à força de preensão da mão. Conclusões: os resultados com a utilização desta técnica foi comparável com os outros métodos descritos. A porcentagem de sucesso e o grau de força na flexão do cotovelo foram significativas sem nenhuma morbidade. Esta técnica provavelmente reduzirá a necessidade de um segundo procedimento para um acréscimo da força de flexão do cotovelo. Os autores propõem que a técnica de transferência dupla seja adotada como o procedimento de escolha nas lesões das raízes C5-C6 e C5-C6-C7.
Comentários:A técnica inicialmente proposta por Oberlin e cols de transferência de um ou mais fascículos do nervo ulnar íntegro para o ramo motor do músculo bíceps no braço tem sido adotada com grande freqüência na restauração da flexão do cotovelo em lesões irreparáveis das raízes C5-C6. O braquial é considerado por alguns autores como um importante músculo para se atingir uma adequada flexão do cotovelo, o que justificaria a utilização de uma técnica para a reinervação do ramo nervoso muscular relacionado. Os resultados demonstrados pelos autores estão em conformidade com os apresentados na literatura, apesar do número reduzido de trabalhos publicados. A proposta da técnica é promissora, no entanto, novos trabalhos são necessários para se comprovar a reduzida morbidade, principalmente considerando-se a utilização de um fascículo do nervo mediano. Além disso, estudos prospectivos comparando as duas técnicas são ainda necessários para a comprovação da superioridade da cirurgia de transferência dupla para a restauração da flexão do cotovelo em relação à transferência isolada de fascículos do nervo ulnar.
Roberto S. Martins
Pondaag W, Boer R, Van Wijlen-Hempel MS, Hofstede-Buitenhuis SM,
Malessy MJA: External rotation as a result of suprascapular nerve
neurotization in obstetric brachial plexus lesion. Neurosurgery 2005; 57:
530-537.
Os autores apresentam uma extensa série de 86 crianças com diagnóstico de
lesão obstétrica do plexo braquial submetidas à cirurgia com ênfase na
avaliação da rotação externa do membro superior após reinervação do nervo
supraescapular (NS). Os autores dividiram os pacientes em dois grupos, um
onde a fonte doadora de axônios para o NS foi a raiz C5 (n=65) e em outro
grupo submetido à transferência do nervo acessório para o NS (n=21). A
definição de se privilegiar uma ou outra técnica se baseou na avaliação
pré-operatória através da tomomielografia e da inspeção intra-operatória da
raiz C5 que incluiu a avaliação histológica da viabilidade da raiz
mencionada, procedimento ideal neste tipo de cirurgia. A ausência de rotação
externa ocorreu em 41 % dos casos, não havendo diferença estatisticamente
significativa na comparação dos resultados nos dois grupos. Os autores
avaliam um aspecto importante da recuperação destas crianças uma vez que a
rotação externa do membro superior é uma função importante para que um
resultado funcional após a cirurgia do plexo braquial seja considerado
funcionalmente eficiente. A dificuldade de se obter a rotação externa apesar
de haver abdução do ombro é justificada pela inervação preferencial do
músculo supraespinhoso, o primeiro músculo inervado pelo NS no seu trajeto
distal, em detrimento do músculo infraespinhoso, o principal responsável
pela rotação externa. Uma possibilidade não explorada neste artigo é o
resultado da reinervação do NS em associação ou não com a restituição da
função do nervo axilar e, em especial, da função do músculo redondo menor
que atua também na rotação externa. A alta porcentagem de crianças que não
obtiveram a rotação externa do membro superior no seguimento foi observada
em outras séries e serve de alerta para que outras técnicas sejam
pesquisadas e utilizadas, e que haja o conhecimento e aplicação de outras
possibilidades terapêuticas tardias no tratamento desta limitação.
Roberto S. Martins
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Caso do Mês de Julho de 2007
Paciente de 7 anos com história prévia de acidente com automóvel, ocorrido há mais ou menos sete meses. Familiar relata que a roda do automóvel passou por cima do abdomem da criança. Apresentou trauma de bexiga e ruptura de fígado, tendo sido submetida a laparotomia exploradora. Relato da cirurgia informa presença de hematoma retroperitoneal. A queixa do familiar é de que a criança apresenta retenção urinária e paralisia dos movimentos do pé esquerdo. Necessita cateterismo vesical intermitente.
O exame neurológico identifica colostomia no quadrante medial esquerdo do abdome. Quanto à força do membro inferior esquerdo, os movimentos de flexão e extensão da coxa e perna encontram-se normais (MRC M5). O exame do pé esquerdo mostra força MRC 0 para dorso-flexão e extensão. Anestesia em dorso e sola do pé. Reflexo aquileu abolido a esquerda.
Foi requisitada uma eletroneuromiografia do membro inferior esquerdo, que sugeriu lesão proximal do nervo ciático. Porém não descreveu se houve avaliação da musculatura paravertebral e, interessantemente, sugeriu velocidades de condução dentro do limite da normalidade emervo sural ipsilateral.
Foi então requisitada uma mielotomografia da coluna lombar. O exame revelou sinais sugestivos de avulsão das raízes L5 e S1 esquerdas.
Coloca-se em discussão: qual a melhor conduta para esse caso?
Envie sua opinião para:
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