Nada conhece sobre seu ofício
aquele que não conhece a história do mesmo.
Goethe


Chegam ao fim o século XX e o II milênio, configurando data mágica e propícia aos balanços históricos. Soma-se a isso o importante momento de transição por que passa a sociedade e, especificamente, a medicina e nossa especialidade. Trata-se, portanto, de ocasião adequada para o balanço histórico da neurocirurgia brasileira, inaugurada em 1928 com o sonho visionário de Antônio de Austregésilo, o pioneiro da neurologia brasileira, e a ação de José Ribe Portugal e Eliseu Paglioli e, também, da Sociedade Brasileira de Neurocirurgia, fundada por onze pioneiros no dia 26 de julho de 1957, no Hotel Metrópole , em Bruxelas (Bélgica).

É fundamental, especialmente nos períodos de crise, o olhar crítico para o passado pois, como afirma Cícero, "a história é a mestra da vida" e é o exemplo dos antepassados que ilumina e inspira nossa ação para a construção do futuro. A visão histórica é especialmente importante na medicina, como adverte Littré: "Se a ciência da medicina não deseja ser rebaixada a um simples ofício deverá ocupar-se de sua história e cuidar dos velhos monumentos que o passado nos legou". O exemplo nos é dado por dois gigantes e pioneiros de nossa especialidade: Victor Horsley e Harvey Cushing. Ambos foram historiadores da medicina. Horsley publicou interessantes pesquisas sobre trepanação no período neolítico e Cushing, dos tempos de estudante de medicina até o leito de morte, dedicou-se à pesquisa da vida de Vesalius, escrevendo a biografia mais importante do homem que inaugurou a moderna medicina. Além disso, escreveu monumental biografia de Willian Osler.

Sempre nos acusamos a nós brasileiros de não termos memória. Parece que tal pecado não é praticado em nossa especialidade, bastando para comprová-lo os periódicos nacionais de neurocirurgia, onde sempre encontramos trabalhos cultuando a memória dos mestres e pioneiros do passado. Comprova-o também a preocupação da atual diretoria da Sociedade Brasileira de Neurocirurgia quando incumbiu a Comissão de História de pesquisar a história da neurocirurgia brasileira e apresentá-la sob a forma de livro no Congresso Brasileiro de Neurocirurgia do ano 2000, em São Paulo.

Imbuídos de tal missão, há dois anos estamos pesquisando e colocando sob forma sistematizada a trajetória percorrida pela neurocirurgia brasileira.

A neurocirurgia brasileira tem sete décadas e a Sociedade Brasileira de Neurocirurgia quatro décadas. São períodos relativamente curtos na vida de instituições, mas o tempo histórico costuma ser relativo, como é o caso da vertiginosa evolução ocorrida nestas duas instituições.

A neurocirurgia brasileira tem sete décadas e a Sociedade Brasileira de Neurocirurgia quatro décadas. São períodos relativamente curtos na vida de instituições, mas o tempo histórico costuma ser relativo, como é o caso da vertiginosa evolução ocorrida nestas duas instituições.

Do começo limitado e autodidático de José Ribe Portugal, com cinco décadas de atraso em relação à Europa, a neurocirurgia brasileira atingiu a sofisticação e a qualidade da neurocirurgia dos países desenvolvidos, sendo hoje respeitada internacionalmente.

Da mesma forma, a Sociedade Brasileira de Neurocirurgia, de início composta de muito entusiasmo e raros membros, é hoje a terceira sociedade internacional de neurocirurgia e seus congressos atingem nível semelhante aos de suas congêneres dos Estados Unidos e dos principais países da Europa. Os fundadores, reunidos em 1957 , em Bruxelas, seguramente não poderiam sonhar com a atual pujança de nossa Sociedade. Dos onze membros iniciais, representantes de poucos centros, hoje somos mais de mil neurocirurgiões disseminados por todo o país.

As inúmeras conquistas desta vertiginosa trajetória justificam plenamente o adequado registro histórico para que não se apague o exemplo dos pioneiros para os futuros neurocirurgiões.

Por um lado, verificamos a gloriosa trajetória da neurocirurgia brasileira, atingindo invejável nível de excelência. Por outro, é patente a grave conjuntura que atravessamos, conseqüente à própria crise da sociedade e do sistema de saúde, intensificada pelo sismo econômico de nosso país.

Este panorama, à primeira vista, é desanimador. Mas a própria história nos mostra que o caminho percorrido pelos que nos antecederam consistiu na superação de obstáculos e limitações, daí a convicção de que a ação conjunta dos membros de nossa Sociedade possibilitará a superação das dificuldades atuais e a seqüência da trajetória gloriosa da neurocirurgia brasileira.

História se faz com fatos e idéias. Os fatos estão impressos em documentos e guardados na memória de testemunhas. Assim, nossa atividade fundamental consistiu em coligir documentos e entrevistar os pioneiros. Já temos bom volume de documentos e entrevistamos alguns pioneiros. Outras entrevistas serão realizadas neste ano.

Com o objetivo de tornar mais completo o levantamento da história da neurocirurgia brasileira, solicitamos a todos os colegas que possuam documentos significativos ou foram testemunhas de fatos importantes que nos enviem suas contribuições. Assim, esperamos poder delinear a saga da neurocirurgia em nosso pais e estabelecer uma referência para as futuras gerações.

Este é o projeto de pesquisa de história da especialidade neurocirúrgica em nosso pais. Com o apoio da Diretoria e a contribuição dos colegas contamos entregar no XXIII Congresso Brasileiro de Neurocirurgia, no ano 2000, o produto final deste projeto, o livro História da Neurocirurgia no Brasil.

José Gilberto de Sousa
Sebastião Silva Gusmão

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